O SALTO.
A manhã está perfeita. Dana sorri fitando o horizonte. Lá embaixo o mar briga furiosamente com o penhasco, mas para os ouvidos de Dana aquela é a mais bela canção que já ouviram. Ao fundo, o motor de um carro velho quebra o soneto do mar, Dana nem se dá o trabalho de olhar, já sabe quem chegou. É Lili, sua velha amiga e companheira de doidices, como sua mãe fala, com aquele ar de irritação.
- Daaaaaaana, telefone para você mocinha. O que você e Elis vão aprontar dessa vez ?
Na noite anterior Lili ligou para confirmar o esquema do dia seguinte, e que se sua mãe soubesse, ficaria com o cabelo em pé, sorri ela.
-Mãezinha querida, eu e Lili, aprontando algo: quanta injustiça de sua parte. Vamos apena curti o mar, como duas crianças inocentes.
Lili traz consigo dois grandes copos de café, o aroma anuncia sua chegada.
- Bom dia guerreira, preparada para o grande salto: ou esta sentada ai procurando sua coragem que se atirou do penhasco?
- Pois é dorminhoca, acabei de ver sua coragem se afogando uns minutos atrás, bem ali ó, perto daquelas pedras.
- Engraçadinha você esta hoje.
Dana se delicia como café, está no ponto, quente, forte e com aquela pitada de canela. É hoje. É hoje. O grande salto. Ela sente um friozinho na barriga só em pensar, mas esta longe de fraquejar. Ela sonha com essa salto a alguns meses, e não seria agora que iria recuar. Dana e Lili tem o espírito aventureiro. Adrenalina é o destino de suas férias. As amigas não são mais adolescentes, mas o mesmo espírito de aventura que começou quando ainda tinham seus dez anos, acampando em uma floresta sozinhas, sempre as acompanhou e as uniu ainda mais na vida adulta. Planejavam férias para as mesmas datas, e marcavam algum encontro com Deus, como Lili falava, rindo depois pavor. Afinal, quase morreram certa vez, quando os tubarões, uns sete ao todo, cercaram a jaula que elas estavam e impediram a saída quando o oxigênio já estava no final. Então para esse ano, marcaram o grande salto.
- Os caras me ligaram Lili, mais uns trinta minutos e estarão passando aqui.
- Demoro.
O esquema era o seguinte, a equipe do salto, depois de pegar o outro grupo, as levaria até o local do encontro, que era na cidade vizinha, até lá elas iriam carro. E lá o avião as pegaria. Começava a brincadeira. Um salto de bung-jump em pleno ar, entre a imensidão azul do céu e o azul do mar. Dana sorri.
- Lili, por mais medo que eu sinta, estou morrendo de vontade de saltar. Aquele bichinho carpinteiro chamado aventura esta doido para sair da gaiola.
- Não é o seu bichinho, o meu também, esta aqui dentro pulando feito pipoca. Que delicia isso.
Lili tranca o seu carro e elas pegam seus pertences, a equipe já chegou. Quarenta minutos depois, embarcam no avião. O grupo é formado pelas duas amigas, dois rapazes, dois responsáveis pelo salto e o piloto do avião. Lá embaixo no barco, quando eles tiverem pulado, terá outros dois responsáveis por tirarem eles do mar. Dentro do avião eles colocam o equipamento para o salto, várias cordas e tiras pelo corpo. Lili será a primeira a saltar, Dana logo depois. A adrenalina aumenta. O piloto fala que estão no ponto. Dana olha pela grande abertura, lá embaixo o barco, pequenino. O colete
salva-vidas os manterá boiando até o barco pegá-los. Um dos caras da equipe do salto vai primeiro, elas olham cuidadosamente os gesto dele. Ele arruma a corda, se desce até um degrau externo do avião.
- Vocês fazem a mesmo coisa, soltam as cordas lá embaixo, depois descem esse degrau. E rezem. Pode ser o ultimo ato com vida. Estou brincando, nem tem nenhum perigo. Está tudo sob controle. Vocês podem pular como quiserem, mas cuidado, que lá embaixo, provavelmente entraram com a cabeça no mar, mas só na primeira descida, quando voltar e desce novamente já não terá tanta força. Quando a corda para lá embaixo, apertem esse botão que vocês caíram no mar, e o barco logo pegará vocês. Ok?
- Só uma pergunta, não tem tubarões lá embaixo né?
Todos riem. E aquele ar de medo ameniza. O cara se prepara, e pula. Os quatro ficam olhando com o coração na mão. O salto sai perfeito. O avião só da uma sacudida na hora que o cara encosta no mar, entra com a cabeça e vai até o peito, mas logo é puxado para cima, caindo umas duas vezes a mais. Acabou. Ele já está lá dentro do barco. E dela chama Lili. É a vez de Lili. Lili é corajosa, nem treme. Joga as cordas, desce o degrau e pula, sem olhar para traz. Dana só escuta os gritos da amiga. Deus do céu. Que frio na barriga. Lili vai e volta três vezes, para e solta as cordas. É sua vez. O cara do avião puxa a corda, amarra na sua cintura e seus pés. A corda esta gelada. Lili acena lá baixo. Sorrindo já dentro barco. Dana tenta sorri, mas não consegue. Estão alto e o mar calmo lá embaixo a chama. É hora. Ela faz o sinal da cruz e desce o degrau. E respira fundo. Se joga. Os braços estendidos, ela tem a sensação que está voando, sente o vento no rosto, é muito gostoso. É tudo muito rápido, quando ela percebe está perto do mar. Ela vem e quando ia fechar os olhos para entrar no mar, a pressão diminui e ao invés de entrar ela apenas encosta, com as duas mãos, brinca com o mar. É puxada pra cima, mas quando volta o mar já não está ao alcance das suas mãos. Vai e volta mais uma vez. Acaba. Sorrindo e com o coração saindo pela boca, ela puxa o gancho e cai no mar. Acabou. Lili se joga no mar e as duas se abraçam. Brincam no mar feito duas crianças, completamente inocentes.
Na volta, no penhasco que Lili deixou o seu carro, as duas amigas sentadas curtem o pôr-do-sol. Completamente realizadas. O salto foi muito melhor que esperavam. As duas estão caladas, absorvendo as últimas horas.
- Fiquei sabendo de uma rota alucinante, um rali no Peru. E a melhor época para atravessá-la é exatamente quando tiramos nossas férias.
Dana só olha para Lili e revira os olhos. Lili gargalha e rola na grama.
- Pode comprar as passagens. Eu topo.
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